Linhas de reflexão

Tendo em conta o contexto que enforma hoje a realidade, mais virtual, hipertextual e mediática, onde se verificam profundas mudanças sociais, processadas a um ritmo intenso e em diversos contextos, torna-se premente uma reflexão em torno do papel do professor e da escola, da necessidade de reconfiguração dos seus modos de trabalho, do desenvolvimento de “novas alfabetizações” e de um olhar avaliativo sobre as suas próprias representações (sobre o que deve ser a escola e o que e como ensinar).

Face à diversidade social e cultural crescente, o debate sobre a importância da cidadania tem vindo a ganhar centralidade nos discursos contemporâneos e questões relacionadas com a interculturalidade, a igualdade, a identidade, a educação ambiental, os media, o voluntariado ou a participação na vida democrática, começam a fazer parte de prioridades definidas por políticas para a área da educação.

É o que se pode observar na Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania (ENEC) (cf. Despacho n.º 6173/2016, de 10 de maio), em que se assume a  Cidadania e Desenvolvimento como um espaço curricular privilegiado para o desenvolvimento de aprendizagens com impacto tridimensional na atitude cívica individual, no relacionamento interpessoal e no relacionamento social e intercultural.

Também a Rede de Bibliotecas Escolares, no Quadro Estratégico 2014/20, define padrões de qualidade, com vista à condução do trabalho desenvolvido por bibliotecas escolares no âmbito da cidadania, assentes numa lógica de participação e de corresponsabilização (As bibliotecas promovem a igualdade de oportunidades no acesso ao conhecimento e ao exercício da cidadania)  e em práticas educativas que promovem a inclusão (As bibliotecas asseguram a igualdade no acesso a equipamentos, serviços e recursos de informação diversificados, capazes de responder às necessidades específicas dos diferentes utilizadores). Se o ensino da cidadania é um caminho que deve vir a ser incorporado nas práticas pedagógicas, então a biblioteca escolar apresenta- se como uma infraestrutura essencial à vida das escolas já que pela sua natureza e missão, se constitui como uma base natural de apoio a alunos, com programas curriculares próprios ou com outras formas de tratamento individualizado.2

Tendo em conta que a cidadania deve estar embutida na própria cultura de escola, alinhada com o desenvolvimento de competências do século XXI (Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória), torna-se necessário refletir sobre as formas substantivas do compromisso que as escolas têm vindo a assumir para com estes conhecimentos e indagar se os agentes educativos estarão preparados para fazer frente a este desiderato.

Se à escola, enquanto ambiente propício ao desenvolvimento de competências, onde os alunos adquirem as múltiplas literacias que precisam de aplicar no dia-a-dia, se exige uma reconfiguração, já o desenvolvimento da educação e das bibliotecas depende muito da importância dada ao trabalho em contexto(s) colaborativo(s) (institucionais, associativos, formais ou informais), ao confronto de opiniões e troca de informações, ao caminho que conscientemente se percorre na procura de uma compreensão mais profunda dos dados de um qualquer problema e à participação conjunta na procura de soluções,  que permita um conhecimento mais sólido sobre a realidade educativa, uma visão mais esclarecida sobre os desafios da sua praxis e a adoção de práticas que incorporem relações horizontais.

Terão os professores uma perspetiva clara sobre o que é a Educação para a Cidadania? As metodologias e práticas pedagógicas adotadas pelas escolas são realmente indutoras de experiências reais de vivência da cidadania? Que oportunidades são dadas aos alunos para se envolverem na tomada de decisões, nomeadamente nas que os afetam? Que formação contínua de docentes sobre Educação para a Cidadania os Centros de Formação/Universidades têm oferecido?

Indagar o lugar que a educação para a cidadania ocupa hoje no ensino e nas escolas é a reflexão que pretendemos fazer com as bibliotecas e outros parceiros, neste VI Encontro das Bibliotecas Escolares do Alentejo.

 

1-Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania (ENEC) [Em linha]. DGE. [Consult. 16-12-2017]
Disponível em WWW: http://www.dge.mec.pt/educacao-para-a-cidadania/documentos-de-referencia

2-Programa Rede de Bibliotecas Escolares. Quadro estratégico: 2014-2020 [Em linha]. Lisboa: RBE. [Consult. 16-12-2017] Disponível em WWW: : http://www.rbe.mec.pt/np4/qe.html